O Mal Sucedido (Duelo do Sol e da Lua)

Dia ácido, clima de cádmio
Cedo demais, o asco e o desdém
Cadê a calda doce do sol?

O damasco e o limão duelam em meio a lama de mel
Do suor saem a comida e o suco
Os dois se secam e as coisas mudam

Ela, a dama de sal com seu diadema
Ele, o mais delicado doce, só usa seda
Cada lado é o mesmo em um século ou cem

Descascada, a maçã lume some do céu
O casulo se cala, sem asas
A cédula se descama e cai em desuso

Soa o melódico disco de sucesso: A lua
De caso com o mal, ela semeia o medo
Um caule seco em seus sulcos

Duas doses acalmam os loucos
Disse o médico
Mas o cálice é desleal

Lá está a lousa do liceu
Muda e ociosa
Lida só em sala de aula

A musa é só mais uma moça dócil
Domada com moedas
Dália em cima da cama

Com calos em seus dedos, a ama mede a cela
O molde do cadeado ideal
Um descuido do acaso

Essas são as leis do caos
De malas, sem laços, a saudade cessou
Em dias aos cacos, use o elmo

O dilema de Medusa,
Em si um escudo,
A maldade é o lema dos deuses

Mesmo assim, a cidade ecoa música
Uma demo da alma em coma
A escada é uma cauda de macaco

Cuidado com a descida

Adeus

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema.
Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)

Romance Granuloma

Meu ego é um morcego
Não nego meu nome
Uma górgona nunca corre

Remo na lama rumo ao graal
No encalço, logo eu o agarro
Carregarei-o em meu colo

Caço na arena oracular
O além em um ângulo raro
A lacuna anormal

Na carruagem, a moça glaucoma me cega
Carrega uma romã amarga em mármore oco
Um anel na mão, uma algema na canela

Eu, uma carga na manga
Uma úlcera como coroa
Em arame, armo a coluna e o muro

Congelo a cena em alegro
Engano-me ao agarrar o mar
Engulo o cloro na água

O córrego morre no lago
E reencarna na marra
A mácula mãe gerou a graça, um marco

Agora rogo:

Coragem carnal,
Lança a mágoa longe
Ancora-me na orla

Magma nuclear, calor ocre
Amolece a amálgama cruel
Cura meu coágulo

Coração arcano,
Anula o rancor e crê no amor

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema.
Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)

Raios Solares & Runas Lunares

Dedicado à Lua (Viana)

Áurea lua real, solene assassina solar,
Sai nua, ilesa no ar, e ensaia seu solo
Seus erros são seres sinuosos e irreais
Sussurros neurais não-lineares

Aérea, ora isola-se na resina
Ora enrola-se nas rosas e seus nós
Analisa os sinais no solo
O raro ouro nas ruínas

A lira ressoa no reino lunar
Na areia, o anseio anula o sono
Ela é a sereia na orla sensorial
Esse oásis sonoro
Serena ilusão

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema.
Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)

Manifesto da Morbidez

  1. Entre sem bater
  2. Abra-se ao meio
  3. Sinta no abdômen os timbres santos e os tons do diabo
  4. Não minta
  5. Reme rumo ao morrer
  6. Batize-se no mar da tristeza
  7. Nade feito as nereidas em ondas frias
  8. Deite-se sob tímidos diamantes na noite imensa
  9. Tens mãos e não estão atadas
  10. Não desista do fim

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema.
Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)

O Irreversível

Viver é ver o revólver e sorrir
Ser e
Ser e
Ser

Velei o loiro sol rei
Levei lírios
O solo rói os ossos
Sorve os róseos versos

Virei silo
Reli os livros
Virei viveiro
Revisei os seres
Vivi o reverso
Versões livres

É lei: o livre se vê só
E só o servo é livre

Se o sol vier, sele vosso elo
Revele-se, riso vivo

É irreversível.

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema. Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)

Enigma Número Um

Imagine um enigma genuíno
Amargo gérmen, o ego
Mero neurônio nu

Mago imune ao mau agouro
O menor gene no ramo, um grama
O maior gênio no reino

Um rumo ermo, rua íngreme
Um monge em meio à regra e a norma
A origem em uma era, o agora

A imagem mãe gera uma menina ruim, a ira
E um menino magro, o amor
Nome e maneira à margem áurea

Numa miragem morena, uniram a nau ao mar
Imaginaram o rei morrer
Amém, rogaram ao negro ar

O enigma é um enorme engano
Ruir o muro é o mínimo
A ira e o amor não morrem

(Esse poema é parte da zine Anagramanátema. Todas as palavras nele são anagramas das letras em seu título.)